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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Regularidade


Embora as redes não mais funcionem;

Embora o Estado esteja em falência;

Embora o sistema esteja um caos;

Embora a página não possa ser exibida;

Embora os pastores sejam amigos dos lobos;

Embora o legal justifique o imoral;

Embora o mal pareça triunfar sobre o bem;

Meus intestinos continuam a funcionar regularmente.


Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 06/10/2016

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Tsunami


Tsunami, venha e me leve.
Lave os caminhos, arrase, lave, leve.
Seja breve.

Sim, eu sei, ao chegar eu sei que morro.
Eu prometo, eu não corro – Inútil desatino.
De longe traga nessas águas meu destino.

Traga tudo que existe nessas ondas.
Nessas massas tudo trague.
Nessas vagas que assombram.

Lave as orlas.
Invada o mar o continente.
Lave, leve as vidas desta gente.

Leve, lave as ruas da cidade.
Trague, cale os piedosos penitentes.
Afogue os presentes, os passados, os ausentes.

Leve os corpos afogados.
Lave os fatigados pavimentos.
Leve o meu corpo em meio aos excrementos.

E se faça toda fúria suave calmaria.
Então retorne ao seu leito n’oceano.
E se faça o silêncio logo após cair o pano.
E repousem as memórias na placidez das águas frias.


Pedro Viegas.
Porto Alegre, dezembro, 2001.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Caro Dr.


Caro Dr.

Não suporto ignorar o meu próprio ser.
Preciso ser o que sou nesta alma vivente.
Por mais que seja a droga potente,
Esta alma não tem mais recurso.
Eis que a vida surgiu de um impulso.


Caro Dr.

Permita viver meu niilismo abjeto.
Permita viver meu viver sem projeto.
Permita agora caminhar com meus passos,
Sem querer explicar as razões dos fracassos.


Caro Dr.

Não pretendo me enquadrar no modelo vigente.
Por mais que eu erre não deixarei de ser gente.
Por mais saciado não estarei satisfeito:
Na mais bela flor somente vejo defeitos.


Obrigado Dr.

Sinto agora aceitar minha percepção deste mundo.
Aceito, desejo e alimento cada vez mais profundo.
O que eu quero e talvez tão logo consiga.
Tantas outras insânias minha alma persiga.
Paciência Dr.
A conta Dr.
Até quando Dr.


Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Porto Alegre, 02 de Julho de 2001


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 1 de dezembro de 2012

A adega de dias perfeitos


Tema recorrente
Avilóquios, canilóquios
Dia ensolarado
Vozes, risos
Gentes dormitam saciadas
Ressonam profundamente
Adormecidas no vazio

Tema insistente
O mesmo tema, sempre o mesmo
O que haveria de mudar
Com que poder
Com que vontade
Alterar eternidade?
 
Vai aonde?
Vai à festa?
Festa após festa
Após festa e o que resta
 
Após uma longa doce sesta
Acumulando um currículo de horas festejadas
Acumulando um montículo de horas bem gozadas
A conclusão há de chegar curta e certa
 
O tempo é destilado dos eventos
E o sono o impregna de fermentos
Avinagrado, o fim do dia engarrafado
Rotularei mais um na minha adega
Mais um litro deste vinho descarnado



Pedro Luiz Da Cas Viegas

Porto Alegre, janeiro 2003

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Maya

Crio.
Crio para o breve instante.
Sob a luz, crio sombras.
Na água, crio ondas.
Crio meus passos n'areia
E movimento no espaço.
Vibra no som que crio
 Esta voz que logo calo.
E crio minha ilusão.
Minha doce esperança.
Crio minha memória
Destinada ao olvido.
Minha vida inteira,
Minha obra efêmera.
Meu breve instante.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 23/11/2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Indo para casa


Indo para casa.

Indo para casa esqueço os detalhes mínimos que ali encontro.
No subúrbio matrizes gritam para as crias os gritos gritados a gerações.
As coisas paradas quase revelam minha vontade.
Milhares ou centenas de milhares de latidos ociosos.
Panelas e seus conteúdos fervem, quando há o que ferver.
Panelas também podem se tornar ociosas.
O trânsito é louco, enlouquece, flui na sua forma sólida, metálica, emborrachada, sobre uma matriz asfáltica.
Flui e pára incessante, dotado de vida própria.
Centenas de muitos milhares de células em vias confusas, apertadas
entre cinzas e avermelhados de prédios e nuvens carregadas de um ócio sem chuva.
O pensamento se torna ocioso nestes tórridos passos com cheiro de fuligem do diesel.
Os caminhos quase sempre se confundem embora sejam sempre os mesmos, embora não existam outros.
Sinais luminosos, sonoros, sinais pichados nas paredes, sinais de cansaço, tédio, dúvida, esperança, felicidade.
Estou quase chegando.
Logo vou lembrar de algo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre,  8/4/2004