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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Casamento do céu e do inferno

No azul do céu de metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.

Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.

Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando...

Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.

Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem ouvido fino
que nem violino.

São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.
Diabo espreita por uma frincha.

Lá embaixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.

E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.

Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Luta

Luto contra ninguém
E ninguém me vence
Com certeiros golpes.
Procuro me esquivar
Mas ninguém é mais rápido.
Acerta-me um e mais outro
Golpe em seqüência dorida.
Luto contra ninguém
E ninguém me convence
De que estou a perder
Para minha própria sombra.


Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10 de setembro de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

Minha fraca eterna chama

Brilha em tudo que se foi e permanece sendo.
Meu corpo-alma é todo brilho ao sentir teu som.
Sinto o frio e sinto o sol e assim estou mais desperto
E sinto mais a vida que por muito pouco esqueço.

Mesmo enquanto falas sem que eu te ouça,
Mesmo assim tão surdo e cego sinto:
Estás aqui, não há mais nenhum além.
E mudo. E ainda mais emudecido permaneço.

E sofro alegria por saber ser pequena parte tua
Contemplando tua obra de horrores e belezas.
E por um momento sou eterno na certeza

De que me tocas pelo ar, pela chuva e pelo pó da terra nua.
De que me falas pelas vozes das caladas multidões.
E que me ouves e manténs a minha alma, minha fraca chama acesa.


Pedro Luiz Da Cas Viegas    
Porto Alegre, 30/11/2004

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Tempo

O meu tempo 
O teu tempo
Estas coisas imiscíveis
Nossos tempos impossíveis
Ocupando o mesmo espaço
Em uma fotografia
Passamos despercebidos
Nesta grande galeria
Que se encobre de poeira
O meu tempo
O teu tempo
Quem vai querer perder tempo
Prestando atenção a nós dois?
 

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 09/07/2012

Sede

Alma amiga,
Não sou um sensitivo,
Tampouco sinestésico.
Também procuro lenitivo,
Também procuro anestésico.
Mas, alma, por que voas longe
Por estes arrabaldes?

Cansaste dos teus sonhos,
Buscas novos ares.
Cheia de incertezas,
Anseias por altares.

Alma, por que vagar tão densa?
Deixes o teu peso como a nuvem
De boa e fecunda chuva
Sobre a terra que a aguarda.

Fiques, chovas em versos
O que sentes,
Faças do poema a vertente
De onde se sacia a sede,
Esta sede que sentimos.

Esta sede que cantamos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas,
Gravataí, 22/07/2012