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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Calor


Consumido me sinto sob o Sol
A cada inspirar
A cada espirar.

Consumido me sinto sobre a Terra
Procurando minha sombra
Derretida em suor.

Combustível, sinto-me liquefeito
Como se de fato fosse
Uma parte dessa estrela.


Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 12/02/2014


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Cigarras

A você, que acredita que a cigarra explode:

Por que motivo é tão difícil
Acreditar que ela simplesmente
Descarta o exoesqueleto vazio e seco

Antes de sair cantando
Até explodir nossos ouvidos
Nessas nossas tardes vazias e secas?

Abafadas tardes de cigarras explosivas.


Gravataí 31/12/2013


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Prata


A prata da Lua
Quisera fosse vermelha
Fosse verde ou azul
Uma cor menos crua


A prata de sempre
Do astro sem luz que espelha
Espelha e espalha silente
A luz da velha estrela


Que noutro lado do mundo
Performa o giro do dia
O dia de sempre
O giro sem rumo
A noite de sempre
A sempre velha luz fria


Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre 02 de fevereiro de 2002


domingo, 7 de julho de 2013

Idiossincrasias

O estranho ser colecionava homens em gaiolas e costumava escolher ao acaso algum deles e submetê-lo à dor. Isso fazia com que o homem produzisse música, o que era bom para o estranho ser. Por conseguinte, a dor seria algo bom para os homens, já que a resposta era algo assim tão bom. Ora, a música dos pássaros...
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 07 de julho de 2013.
 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O molusco


Choveu um pouco neste final de tarde. Na noite quieta
sobre a floreira, discreto, um caracol espia seu mundo. Não.
Hoje não estou disposto a matar nada. Pego o simpático molusco
e o coloco sobre uma Saintpaulia. Alguém não gosta disto. Não,
não vou atirá-lo às pedras da rua.
Agora ele deve estar continuando sua busca. Talvez
pense ao seu modo invertebrado.
E eu continuo sem saber se sei se vale a pena pensar.



Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio, 2005.

sábado, 27 de abril de 2013

Um bem-te-vi pousa na caneleira

 
Um bem-te-vi pousa na caneleira.
 
Quisera tu poder dizer o que sentes,
           mas, vazio de sentidos,
limita-te a ver a ave pousada
           e a ouvir seus gritos
que não decifras.
 
Teu silêncio abre caminho
           entre a luz;
Refletido pelas folhas,
           pequenos sóis gritando "bem-te-vi".
 
Teu silêncio é denso e sem sentido
           e num átimo a ave o percebe
e alça voo até outro paradeiro.
 
Ficam as folhas e seus sóis agora quietos
           acompanhando teu silêncio.


Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 12/01-28/04/ 2013.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Levíssimo incenso


Não estou tranquilo. Passa o dia irremediável.
Apesar dessa doçura, apesar dessa leveza
      envolvente em tudo, ainda assim
não estou tranquilo.

Essa leveza de coisa que evapora. Essa doçura
      dissolvida no silêncio.
Não estou tranquilo.
-É a vida que docemente se esvai como levíssimo incenso.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 14/03/2013 - 17/04/2013

sábado, 13 de abril de 2013

Macerófagos



I

Enquanto maceram-se os alimentos

Vão se ruminando os pensamentos

As azias que corroem

As idéias que corrompem

Regurgitam-se trituradas

As mais preciosas esperanças



II

Cavalo que sou

Macerei do melhor

E no fino manto relvado

Esterquei minhas abjeções



Asno que sou

Ponderei mais que o devido

E por vezes descobri tardiamente

O erro do caminho escolhido



III

Macerado, deglutido

Dia a dia ingerido

À mesa do tempo que passa

Repleta, farta dos eventos servidos



Macerófagos, todos juntos macerando

Revirando, remoendo, desfazendo a solidez

Devagar se esvai o sumo

Devagar se encontra o rumo



Macerófagos macerantes

Mastigam, trituram

Músculos, ossos

Folhas, fibras e sementes



Ruminam dúvidas, certezas e temores

Dilaceram as próprias esperanças

Num macerar sem sabores



Pedro Luiz Da Cas Viegas

Porto Alegre. Junho, 2001.

sábado, 2 de março de 2013

Luz

A luz do poente contra as vidraças
Reflete nesta sala uma cor dourada.
Na água que bebo sorvo dessa luz
E sinto luminoso sabor de vida,
Essa vida que correu entre estrelas,
Escorreu entre as vidraças,
Alcançou a minha água
Iluminou meu paladar
E foi-se em gotas de ocaso.



Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí,      03/03/2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Caro Dr.


Caro Dr.

Não suporto ignorar o meu próprio ser.
Preciso ser o que sou nesta alma vivente.
Por mais que seja a droga potente,
Esta alma não tem mais recurso.
Eis que a vida surgiu de um impulso.


Caro Dr.

Permita viver meu niilismo abjeto.
Permita viver meu viver sem projeto.
Permita agora caminhar com meus passos,
Sem querer explicar as razões dos fracassos.


Caro Dr.

Não pretendo me enquadrar no modelo vigente.
Por mais que eu erre não deixarei de ser gente.
Por mais saciado não estarei satisfeito:
Na mais bela flor somente vejo defeitos.


Obrigado Dr.

Sinto agora aceitar minha percepção deste mundo.
Aceito, desejo e alimento cada vez mais profundo.
O que eu quero e talvez tão logo consiga.
Tantas outras insânias minha alma persiga.
Paciência Dr.
A conta Dr.
Até quando Dr.


Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Porto Alegre, 02 de Julho de 2001


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Planos

Pegar algo,
Fazer algo.
Pegar um cão e passear.
Pegar um carro e rodar.
Pegar um martelo
Inserir prego em madeira.
 
Pegar uma pedra e atirar.
Pegar ventos
Aspirar frios.
Aspirar e tremer.
Tremer e parar.
 
Pensar no próximo passo.
Passo a passo
Estacionário impasse
Quem tiver vontade de aço
Que minha vontade trespasse
E arranque desta cadeira
Esta cabisbaixa caveira
 
Mostre o caminho do sol
Não consigo sorrir
Vou pegar o espelho
Atirar ao pavimentado passeio
-Meus cacos sérios
Serão pisoteados
E ficarei quieto
Meu peso na alma
 
O grito trancado por trás do gradil
Agarro uma grade - o vão é estreito
O horizonte que vejo
A avenida e o vento
Caniloquazes chamados
Serei eu, serão eles?
 
Pedro Viegas
 
Porto Alegre . 7, outubro, 2001.



domingo, 2 de dezembro de 2012

Protopenso

Protopenso em azul vazio
Para libertar a mente deste moedor
Mói dor
Mó de medo

Protopenso leves flores
Sem venenos ou espinhos
Brisa fresca no relvado
Inocentemente verde
Protopenso fugir desta rede

Sinto mais do que penso
Protopenso



Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 29/09/2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

A adega de dias perfeitos


Tema recorrente
Avilóquios, canilóquios
Dia ensolarado
Vozes, risos
Gentes dormitam saciadas
Ressonam profundamente
Adormecidas no vazio

Tema insistente
O mesmo tema, sempre o mesmo
O que haveria de mudar
Com que poder
Com que vontade
Alterar eternidade?
 
Vai aonde?
Vai à festa?
Festa após festa
Após festa e o que resta
 
Após uma longa doce sesta
Acumulando um currículo de horas festejadas
Acumulando um montículo de horas bem gozadas
A conclusão há de chegar curta e certa
 
O tempo é destilado dos eventos
E o sono o impregna de fermentos
Avinagrado, o fim do dia engarrafado
Rotularei mais um na minha adega
Mais um litro deste vinho descarnado



Pedro Luiz Da Cas Viegas

Porto Alegre, janeiro 2003

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Maya

Crio.
Crio para o breve instante.
Sob a luz, crio sombras.
Na água, crio ondas.
Crio meus passos n'areia
E movimento no espaço.
Vibra no som que crio
 Esta voz que logo calo.
E crio minha ilusão.
Minha doce esperança.
Crio minha memória
Destinada ao olvido.
Minha vida inteira,
Minha obra efêmera.
Meu breve instante.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 23/11/2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Indo para casa


Indo para casa.

Indo para casa esqueço os detalhes mínimos que ali encontro.
No subúrbio matrizes gritam para as crias os gritos gritados a gerações.
As coisas paradas quase revelam minha vontade.
Milhares ou centenas de milhares de latidos ociosos.
Panelas e seus conteúdos fervem, quando há o que ferver.
Panelas também podem se tornar ociosas.
O trânsito é louco, enlouquece, flui na sua forma sólida, metálica, emborrachada, sobre uma matriz asfáltica.
Flui e pára incessante, dotado de vida própria.
Centenas de muitos milhares de células em vias confusas, apertadas
entre cinzas e avermelhados de prédios e nuvens carregadas de um ócio sem chuva.
O pensamento se torna ocioso nestes tórridos passos com cheiro de fuligem do diesel.
Os caminhos quase sempre se confundem embora sejam sempre os mesmos, embora não existam outros.
Sinais luminosos, sonoros, sinais pichados nas paredes, sinais de cansaço, tédio, dúvida, esperança, felicidade.
Estou quase chegando.
Logo vou lembrar de algo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre,  8/4/2004

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Randomatizes II

enquanto ouvindo música de caixilho de ouvido
à luz do lusco fusco renovando
quadrimoto, segue plenosexo à gaitada
em reviravolta: coitividas de meio em meio turno

em meio, ao sabor, emolduradamente
a turbilhões, a colmeias de enxames (quantas, quantas)
cascatarias de concordantes margaridas
e seus pólens e estames e estigmas

oh meu ser, o que seria desta luz
sem os meus olhos a ver obra toda esta

pulsa à flor daquela pele
e tão profunda - mente - pulsa
que és parte plena
de tudo algo e convulsa


Pedro Luiz Da Cas Viegas
29 de outubro de 2012


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Verdade

A verdade.
A verdade e suas lâminas.
A verdade e suas pétalas.
Andar no fio da verdade.
Verdade
Mal te quero
Bem te quero.


Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 18 de outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fuga chuvaz

Chuva para embalar sonos 
Sonos para afastar 
Afastar qualquer coisa 
Coisa da qual se fuja 
Fugindo da chuva 
Chovendo na fuga 
Fuga chuvosa 
Chuva fugaz 
Chuva fugosa
Fuga chuvaz 


Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Porto Alegre, 04/09/2001

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Coincidência

Benditos frutos que brotam
De casa em casa
Da urbe, locais de dormir.
E os frutos se mostram
De casa em casa
Após tanto tempo,
Na urbe, locais de sorrir.

Sonhos e frutos na urbe
Sob o céu cinza.
Os dias, as falas, os passos
Na urbe, seja onde for,
Serão sempre os mesmos
Os dias, falas e passos,
Os frutos, sonhos e sonos,
Beijos, risos e vozes,
Deslocamentos.

Deslouco, percorro,
Distância ocorrida
E tudo eu vejo e ouço
De um ângulo de tantos
Guardado na urbe,
Num canto.

Eu, eu, eu. Sou o conteúdo,
Conteúdo que transporto,
Não importa a distância,
A altura ou velocidade.
Aqui, lá, acolá, e mais adiante,
Serei eu, eu, sempre eu
Minha carga,
Minhas tendências,
Meu próprio silêncio.

Serei eu, eu, sempre eu.
O meu próprio medo.
Não importa o templo,
A beleza da urbe, o tempo.
Serei eu, eu, sempre eu
O meu próprio consolo.

E tu serás, talvez,
Serás talvez sempre espelho,
Não importa onde estejas,
Do que eu possa ser,
Do que eu deva ser,
Do que eu me conceba,
Do que pudesse ser concebido,
Uma grande, completa e estranha
Coincidência.


Pedro Viegas
Porto Alegre, 16/março/2003